No dia em que se comemora o esporte no Brasil, precisamos parar para pensar se realmente somos o país do futebol.
A história que foi feita
Machismo, preconceito, desigualdade, inferioridade, são páginas que marcam as carreiras de mulheres que decidem seguir o futebol no Brasil. Mas, ainda assim, nos intitulamos "País do Futebol", mesmo que os primeiros toques na bola tenham acontecido na Inglaterra.
A modalidade chegou ao Brasil em 1894, trazida por Charles Miller, mas, na época, apenas homens brancos podiam jogar. A introdução de pessoas negras e imigrantes só aconteceu em 1920, mais de 20 anos depois.
Já as mulheres podiam jogar desde 1913, mas somente em amistosos e jogos beneficentes. Em 1940, o Pacaembu, em São Paulo, foi palco de um duelo entre mulheres, o que causou a desaprovação de parte da sociedade. Tanto que, um ano depois, veio o primeiro decreto por lei, criado pelo CND (Conselho Nacional de Desportos), que ressaltava que as mulheres não deveriam praticar esportes que não fossem adequados à sua natureza. Apesar de não ser citado nominalmente, o futebol se enquadrava.
Em 1965, com a presença do governo militar, o decreto foi publicado novamente, mas agora com mais clareza à proibição: "Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país".
Apenas com o fim da ditadura o decreto da proibição das mulheres no futebol foi revogado. Mas, pela falta de investimento dos clubes na modalidade, a resistência cultural ainda permanecia.
O cenário começou a mudar em 1983, com a regularização da modalidade, aparecendo os primeiros campeonatos e times profissionais. Em 1988, a Fifa organizou o primeiro torneio entre seleções, de forma experimental. No entanto, os uniformes eram sobras das roupas dos homens.
O futebol feminino começou a ser mais reconhecido em 1999 e 2003, com a conquista da medalha dos Jogos Olímpicos e o terceiro lugar na Copa do Mundo pela Seleção Brasileira.
Mas, apesar das barreiras do futebol feminino já estarem sendo quebradas, a modalidade ainda luta pelos seus direitos. Meninas abaixo dos 17 anos, para disputarem campeonatos profissionais, precisam estar em times masculinos e competir em torneios contra meninos, já que a CBF só realiza campeonatos femininos a partir do Sub-17.
Fazendo história agora
A atleta do Botafogo, Giovanna Waksman, de 13 anos, é uma das meninas que precisam viver essa realidade para conseguir realizar seu sonho de ser a melhor do mundo e jogar fora do Brasil.
Há exatamente um mês, a meia atacante foi vítima de uma triste situação que, infelizmente, faz parte do dia a dia da maioria das mulheres que desejam viver do esporte. Durante uma partida contra o São Cristóvão, no Estádio Ronaldo Nazário, pelas semifinais do Campeonato Metropolitano Masculino Sub-13, a jogadora sofreu faltas duras e ataques verbais, das arquibancadas e por parte dos pais dos atletas da equipe adversária.
"Gritaram mandando me matar, dizendo para não deixar eu jogar, que futebol é para homens. E coisas muito piores também. A maioria (dos gritos) vem de mulheres, as mães dos meninos. Um absurdo", revela Giovanna.
Giovanna conta que, durante o jogo, não chegou a escutar as ofensas, apenas depois que seu pai editou o vídeo ficou sabendo sobre o que tinha acontecido, mas não foi a primeira vez que passou por tal situação.
Felizmente, a jovem jogadora conta com o apoio da família, fator com o qual nem sempre todas podem contar.
Para um país intitulado como "País do Futebol", é necessário ser exemplo para os restantes. Como ser exemplo, se situações como essa infelizmente tornaram-se "normais"?
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